TDAH, escola e família
Camila Mireli da Rosa
Educadora
Por que é tão difícil o TDAH ser percebido por um professor? Por que a família tem dificuldade em aceitar uma possível ajuda? Questões como essas são vistas aos montes em escolas e famílias de toda parte.
É muito mais fácil e cômodo pensar que seus filhos sempre serão brilhantes ou que os alunos agitados ou que não conseguem prestar atenção são malcriados... Ver o que realmente se passa com o filho ou o aluno dá trabalho, demanda tempo e tudo que todos querem é não serem incomodados...
Creio que com um com uma situação verídica, de como é esse mundo "TDAH escola e família", o entendimento ficará mais fácil do que qualquer discurso sobre o assunto. O relato sofreu algumas modificações para que os participantes não tenham que reviver nenhum constrangimento.
Certa vez, em uma pequena escola da cidade de Curitiba havia um professor muito atento aos problemas de aprendizagem de seus alunos e percebeu que seus colegas professores reclamavam muito de uma aluna do 7º ano em específico. Diziam muito sobre ela: "Preguiçosa"; "Vive no mundo da lua"; "Distrai os colegas". E assim seguiam com o pensamento até raivoso sobre a aluna. Foi então que o professor notou que ela era uma aluna distraída, mas que a preguiça não era de má vontade e sim decorrente dos sintomas do TDAH, de postergar as suas atividades por uma falta de vontade que é maior do que sua consciência de estudo. Além disso, ela nunca se lembrava de anotar as tarefas e mesmo quando anotava, porque o professor ficava ao lado conferindo, acabava por não fazê-las. Foi então que o professor comunicou a coordenação que havia algo de errado com a garota e que ela não fazia as coisas por mal e sim porque possuía uma dificuldade maior...
A coordenação comunicou os pais que não demonstraram muito interesse e então soubemos que eles haviam se separado a pouco, logo ficava mais claro a falta do interesse deles.
No meio do ano a garota inteligente estava de recuperação em quase todas as matérias. O professor inconformado foi mais uma vez até a direção para que pedissem para que os pais fossem atrás de ajuda para a garota. Dessa vez a coordenação e a direção estavam muito ocupadas para tal feito. O professor, sentindo-se de mãos atadas resolveu colocar um bilhete na agenda, que foi prontamente respondido pelo pai da aluna, que dizia que procuraria ajuda. E assim o fez. Em uma semana a garota havia sido diagnosticada com TDAH e estava medicada. Terminou o ano como se fosse outra criança, concentrada e disposta. O professor sentiu-se satisfeito e até recebeu uma carta do pai agradecendo o auxilio dado à filha. Com alegria aquele ano foi concluído.
Após as férias, o professor certo de que a garota estaria bem e pronta para o 8º ano se decepcionou ao perceber que as características de desatenção e hiperatividade haviam voltado. Logo comunicou a coordenação, que lhe avisou que os pais não queriam tratar sobre o assunto.
O professor ficou intrigado, pois no fim do ano o pai havia sido muito receptivo a suas queixas e inclusive a aluna havia sido tratada. Então ele escreveu aos pais questionando o porquê da interrupção do tratamento. Ele não obteve respostas. Alguns dias após o feito foi chamado à coordenação e questionado por seu ato. Ele explicou que estava interessado no sucesso da aluna e a direção disse que a mãe da garota exigia uma reunião com o professor, pois não gostou que ele falasse sobre o tratamento de sua filha. Foi então que o professor percebeu que estava em um conflito entre pai e mãe o primeiro queria e aceitava o tratamento, enquanto a segunda disputava com o pai a garota.
Mas em um domingo o professor recebeu uma má notícia: perdera sua avó paterna. Como ainda morava com seus pais e seu pai estava dormindo precisava acordá-lo para contar-lhe, nada pior a se fazerem que avisar para alguém que a mãe morreu... Ok, o professor deu conta do que tinha que fazer, mas não poderia ministrar aulas no dia seguinte. Ligou imediatamente para sua coordenadora e avisou do ocorrido e ela disse que não haveria problema. Na terça-feira quando o professor voltou à escola a diretora estava na secretaria lhe esperando, coisa que nunca antes acontecera, ela lhe deu os pêsames e disse "Pode voltar para casa, você está demitido, pois a mãe da garota pediu sua demissão...".Quero levantar algumas reflexões: a maioria dos professores entende sobre dificuldades de aprendizagem? A escola está pronta para perceber, reconhecer e aceitar esse tipo de profissional capacitado? A escola virou espaço de compras, os pais compram os alunos e quem os ensina? A família está preparada para o diferente? Os pais educam e prestam atenção aos seus filhos ou vão levando a vida? Creio que todos os envolvidos na educação - pais, alunos, professores, diretores - devem refletir sobre esses e outros pontos quando o assunto são dificuldades de aprendizagem.